A inteligência artificial já escreve laudos melhores que você? Responda qualquer quesito com um prompt.
A perícia judicial – especialmente nas esferas cível e trabalhista – é fundamental para resolver disputas legais, fornecendo análises técnicas que ajudam o juiz a tomar decisões embasadas. Com o avanço da tecnologia, a Inteligência Artificial (IA) desponta como uma ferramenta revolucionária, trazendo mais precisão e eficiência ao trabalho dos peritos. Mas como exatamente a IA pode ser aplicada nessas perícias? Quais benefícios práticos ela oferece em áreas como engenharia, medicina ou contabilidade? E de que forma peritos iniciantes e experientes podem usar IA para ler documentos, resumir processos, realizar cálculos complexos e redigir laudos mais rapidamente? Neste artigo, vamos explorar todas essas questões de forma didática e aprofundada, com exemplos práticos e prompts de IA prontos para uso. Ao final, você ainda poderá baixar gratuitamente uma lista imperdível com 9 prompts que vão turbinar a elaboração e revisão de qualquer laudo pericial ou parecer técnico. Vamos lá!
IA versus Perícia Judicial: Uma Combinação Poderosa
Antes de tudo, é bom lembrar o que é uma perícia judicial. Trata-se da aplicação de conhecimentos técnicos ou científicos para esclarecer fatos em um processo, por meio de um laudo pericial produzido por um perito nomeado pelo juiz. Nas ações cíveis e trabalhistas, isso abrange uma variedade enorme de áreas: perícias de engenharia (edificações, acidentes industriais, avaliação de imóveis), perícias médicas (por exemplo, avaliar se uma lesão reduziu a capacidade de trabalho de alguém), perícias contábeis (cálculos de valores devidos, análise financeira de fraudes), entre muitas outras. A IA pode impactar todas essas especialidades, pois em essência ela ajuda a analisar dados, encontrar padrões, automatizar tarefas repetitivas e gerar textos – exatamente os tipos de atividades presentes no trabalho pericial.
Vamos considerar alguns exemplos de como a IA pode ser aplicada em diferentes tipos de perícia:
- Perícia de Engenharia: IA pode auxiliar na análise de projetos e relatórios técnicos extensos, identificando padrões de falhas em estruturas ou equipamentos que poderiam passar despercebidos. Por exemplo, algoritmos de visão computacional já conseguem detectar fissuras ou deformações em imagens de pontes e prédios, alertando o perito para possíveis causas do problema. Além disso, modelos treinados com normas técnicas podem checar automaticamente se determinado laudo está em conformidade com padrões da ABNT (como a NBR 13752, que orienta perícias de engenharia civil).
- Perícia Contábil: Talvez onde a IA mais brilhe seja no garimpo de dados financeiros. Com técnicas de machine learning, um software pode vasculhar milhares de lançamentos contábeis, extratos bancários ou folhas de pagamento em segundos, identificando anomalias ou discrepâncias que levariam dias para um humano encontrar. De fato, algoritmos avançados já permitem filtrar registros financeiros e detectar indícios de fraude ou erros sutis em cálculos. Isso agiliza investigações de desvios e ajuda o perito a focar nos pontos críticos. Veremos adiante também como a IA pode automatizar cálculos periciais trabalhistas (como liquidação de horas extras, verbas rescisórias, etc.), gerando não só os números mas também o memorial de cálculo explicado passo a passo.
- Perícia Médica: Na área de saúde ocupacional ou perícias de dano corporal, a IA pode atuar como uma assistente incansável na leitura de prontuários, laudos médicos e exames clínicos. Ela consegue compilar um histórico médico volumoso e destacar padrões relevantes – por exemplo, uma sequência de sintomas ao longo do tempo – que poderiam escapar na leitura tradicional. Além disso, sistemas de IA já são usados para auxiliar diagnósticos médicos, identificando com alta precisão imagens de raios X, ressonâncias ou tomografias. Em contexto pericial, isso pode ajudar um médico perito a estimar, por exemplo, o percentual de incapacidade de um trabalhador após um acidente, comparando dados do paciente com bases médicas amplas. Importante: a decisão final continua sendo do perito humano, mas a IA funciona como um conselheiro técnico que acelera análises e reduz chances de erro humano.
Vale ressaltar que, ao contrário do âmbito criminal, onde a IA também avança (reconhecimento facial, análise forense de DNA, etc.), aqui nos concentraremos nas aplicações cíveis e trabalhistas – onde o objetivo não é identificar criminosos, mas sim solucionar controvérsias contratuais, trabalhistas, de indenização, etc., de forma mais ágil e precisa.
A seguir, vamos nos aprofundar nas principais aplicações da IA no dia a dia das perícias judiciais, desde a triagem de documentos até a redação do laudo final. Em cada tópico, você verá exemplos de como a IA pode facilitar a vida do perito (seja ele iniciante ou veterano), mantendo a linguagem acessível mas sem perder a profundidade técnica.
Aplicações da IA nas Tarefas do Perito Judicial
A rotina de um perito judicial envolve diversas etapas e tarefas bastante definidas, como: ler e analisar documentos do processo, resumir informações complexas, realizar cálculos e testes técnicos, responder aos quesitos (perguntas) formulados pelas partes e pelo juiz, e por fim elaborar um laudo claro e bem fundamentado. Vamos ver como a IA pode auxiliar amplamente em cada uma dessas frentes.
1. Leitura e Análise de Documentos Técnicos e Processuais
Uma perícia típica vem acompanhada de pilhas de documentos: petição inicial, contestação, documentos técnicos anexados pelas partes (como plantas, relatórios, planilhas), decisões interlocutórias, e assim por diante. Só a leitura cuidadosa de tudo isso pode consumir horas ou dias do trabalho do perito. É aqui que a IA mostra um de seus maiores trunfos: a capacidade de analisar rapidamente grandes volumes de dados e identificar padrões ou anomalias que um humano levaria muito mais tempo para perceber.
Ferramentas de Processamento de Linguagem Natural (NLP) conseguem “ler” textos jurídicos e técnicos e extrair as informações mais relevantes. Por exemplo, já existem plataformas que utilizam IA para varrer automaticamente um conjunto de documentos processuais e apontar os fatos-chave, datas importantes, valores envolvidos e até sentimentos ou posições das partes em cada documento. Com isso, o perito pode rapidamente entender o panorama geral do caso antes mesmo de mergulhar nos detalhes.
Outra aplicação poderosa é a busca inteligente de informações técnicas. Imagine que em um processo de engenharia há um relatório de 200 páginas sobre a análise do solo de um terreno. Em vez de ler página por página, o perito pode usar uma IA para buscar termos específicos (como “índice de liquidez” ou “contaminação por nitrato”) e encontrar todas as ocorrências relevantes, ou até pedir para a IA resumir as conclusões técnicas daquele documento. Modelos atuais são capazes de classificar trechos de texto por relevância e até responder perguntas sobre o conteúdo (“qual foi a conclusão do engenheiro X sobre a causa das trincas?”), desde que tenham sido alimentados com o texto completo.
No âmbito jurídico, a IA também auxilia em pesquisa de jurisprudência e normas técnicas relacionadas à perícia. Alguns assistentes inteligentes conseguem ler uma petição onde a parte cita, por exemplo, a Norma Regulamentadora NR-15 do Ministério do Trabalho (sobre insalubridade) e já trazer um resumo dessa norma ou casos similares julgados. Assim, o perito se contextualiza melhor sobre os parâmetros legais e técnicos que precisa considerar.
Em suma, para ler e analisar documentos, a IA oferece: velocidade na triagem, detecção de padrões/dados importantes e facilidade para navegar em textos longos. É como ter um estagiário incansável que lê tudo para você e destaca os trechos de ouro. Claro, a supervisão humana continua essencial – a IA pode errar ou deixar passar detalhes sutis, então o perito deve revisar criticamente – mas como ponto de partida, essa tecnologia ganha um tempo precioso. Um artigo de 2025 destacou que a IA pode identificar informações-chave em documentos legais e lidar automaticamente com tarefas repetitivas, liberando os profissionais para atividades de maior valor analítico.
2. Otimização de Resumos de Processos e Decisões
Após digerir os documentos, outro desafio comum é resumir informações complexas de forma clara – seja para uso próprio do perito (fazer um plano de perícia) ou até para apresentar no laudo. Aqui novamente a IA generativa (como o ChatGPT) pode ajudar bastante com sua habilidade de síntese de linguagem.
Imagine ter que resumir um processo de 5 anos em poucas páginas do laudo, explicando o histórico da ação, o que cada parte alega, o que o juiz determinou etc. Ferramentas de IA são capazes de gerar resumos estruturados a partir dos autos: por exemplo, você pode fornecer à IA a sequência das principais movimentações do processo (ou a própria sentença, se já houver) e pedir um resumo objetivo dos pontos relevantes para a perícia. O resultado será um texto condensado, destacando o contexto do litígio (parte A alega X, parte B alega Y, questão a ser periciada é Z) em linguagem clara. Isso ajuda não só o perito a organizar suas ideias, mas também pode ser incorporado ao laudo na parte de “Histórico” ou “Introdução”, economizando tempo de redação.
No caso de decisões judiciais ou legislações técnicas, a IA também brilha. Muitas vezes, um laudo precisa citar jurisprudências ou explicar trechos de leis/normas. Com IA, é possível gerar resumos explicativos de decisões – por exemplo, “resuma em linguagem simples os principais pontos da decisão do TST anexa, destacando como ela se relaciona ao adicional de periculosidade que estou periciando”. Em segundos, a ferramenta entrega um parágrafo resumindo o entendimento do tribunal sobre aquele assunto.
Alguns softwares jurídicos já implementam essas funções de resumo automaticamente. O Everlaw, por exemplo, é uma plataforma de e-discovery que usa IA para criar resumos de documentos e auxiliar na construção de narrativas de caso. Ou seja, não é mais ficção científica: já estamos usando IA para resumir processos reais.
É importante, contudo, revisar todo output da IA. Ela tende a acertar o grosso, mas pode ocasionalmente “alucinar” detalhes – incluir algo que não existe no texto original. Por isso, o perito deve sempre conferir se o resumo gerado bate com os documentos fonte. Ainda assim, mesmo exigindo revisão, a economia de esforço mental é enorme. Em vez de quebrar a cabeça condensando informações, o perito passa a ser um editor, refinando um texto-base que a IA propôs.
3. Treinamento de Modelos de IA com Casos Anteriores e Normas (ABNT)
Uma aplicação mais avançada – e extremamente promissora – é customizar modelos de IA para a área pericial. Isso significa treinar ou ajustar algoritmos com bases de conhecimento específicas, como laudos antigos, pareceres técnicos, manuais e normas da ABNT que estabelecem boas práticas de perícia.
Pense no seguinte: e se você pudesse ter uma IA que “leu” centenas de laudos periciais bem feitos da sua área? Ela aprenderia a estrutura, o linguajar técnico, os tipos de análise comuns, as referências normativas, etc. Com esse treinamento, quando você fosse elaborar um laudo novo, a IA poderia sugerir conteúdos e estruturas alinhadas às melhores práticas. Por exemplo, sabendo que a ABNT ou o Código de Processo Civil exigem certas seções no laudo (objeto, metodologia, análise, conclusão, resposta aos quesitos – conforme art. 473 do CPC, o modelo poderia te lembrar de abordar todos esses tópicos, garantindo que nada essencial seja esquecido.
Aliás, o art. 473 do CPC/2015 lista os requisitos do laudo pericial (objeto da perícia, análise técnica, metodologia utilizada, esclarecimento dos quesitos, etc.) e exige que o perito responda de forma precisa a todos os quesitos apresentados. Uma IA treinada nesse contexto pode atuar como um checklist vivo: você pode perguntar a ela “falta cobrir algum quesito ou algum item obrigatório do laudo?”. Ela, tendo “lido” o CPC e talvez modelos de laudo, pode conferir seu rascunho e indicar: “Notei que no seu texto não há uma seção explicitando a metodologia empregada – seria importante incluí-la para atender ao art. 473, II, do CPC”. Ou “Há um quesito da parte autora sobre X que ainda não foi respondido no seu rascunho”. Essas sugestões são valiosas especialmente para peritos iniciantes, evitando falhas formais que poderiam levar a questionamentos ou impugnações do laudo.
Quanto às normas técnicas da ABNT e outros órgãos (IBAPE, CFM, CRC, etc.), elas definem padrões de como conduzir e apresentar uma perícia em cada área. Por exemplo, a ABNT NBR 13752 orienta perícias de engenharia na construção civil; o Conselho Federal de Medicina tem resolução sobre perícia médica; o Conselho de Contabilidade tem normativos para perícia contábil, e assim por diante. Incorporar essas referências em um modelo de IA significa que ele poderá justificar procedimentos com base nas normas. Imagina pedir: “IA, redija o trecho de metodologia conforme as normas, explicando que será usada inspeção visual e ensaio de esclerometria conforme a NBR xxxx”. Tendo essa norma na base, a IA consegue citar e explicar conforme o jargão correto.
Atualmente, treinar um modelo do zero exigiria muitos dados e conhecimento técnico. Porém, existem abordagens mais simples como o “aprendizado por reforço de preferências” – em que você gradualmente ensina a IA quais respostas estão boas – ou o uso de prompts avançados com exemplos, onde você mostra modelos de resposta esperada. Ferramentas no mercado (como plataformas de gestão de perícias com IA) provavelmente já incluem memórias de contexto especializadas. De fato, já há soluções brasileiras que integram a tecnologia do ChatGPT para refinar documentos periciais usando informações de processos cadastrados e peças jurídicas anterioresmaispericia.appmaispericia.app. Ou seja, o sistema “aprende” com os casos que você insere nele, refinando futuras respostas.
É importante mencionar que a qualidade dos dados de treino é crucial. Uma fonte confiável aponta que para a IA funcionar bem, os dados usados precisam ser de alta qualidade e livres de vieses. Assim, ao alimentar o modelo com laudos e normas, devemos usar conteúdos corretos e atualizados, senão a IA pode acabar reproduzindo erros ou conceitos ultrapassados. Com dados bem escolhidos, no entanto, o ganho é enorme: a IA passa a ser quase um especialista virtual, conhecendo precedentes e orientações técnicas específicas da área.
4. Cálculo Pericial Automatizado (com Memorial e Explicações)
Muitos laudos periciais, especialmente em matéria trabalhista e contábil, envolvem cálculos numéricos complexos. Pode ser a conta de quantas horas extras são devidas a um empregado ao longo de 5 anos, com diferentes percentuais e feriados; ou a atualização de uma dívida com juros e correção monetária; ou ainda o cálculo de lucros cessantes em uma ação indenizatória cível. Tradicionalmente, peritos montam planilhas ou usam software específico (como calculadoras financeiras, Matlab, etc.) para esses fins. Mas a IA também está entrando nesse terreno, combinando sua habilidade de programação e linguagem para automatizar cálculos e já gerar o memorial explicativo.
Por exemplo, modelos como o ChatGPT-4 conseguem escrever código. Você pode literalmente pedir: “Calcule o valor devido de horas extras para o seguinte caso: salário X, jornada Y, período tal, considerando 50% de acréscimo nas 2 primeiras horas diárias e 100% nas demais; aplique correção monetária pelo índice Z até hoje. Forneça o código Python usado e o resultado do cálculo”. Em resposta, a IA pode gerar um script em Python, executar virtualmente e devolver: “Total de horas extras: … Valor bruto: … Valor atualizado: …” junto com o código. Isso permite ao perito verificar e até rodar o código de forma independente para confirmar. É como ter um programador assistente te ajudando nos cálculos personalizados da perícia.
Uma vez obtidos os números, a IA generativa também pode redigir o memorial de cálculo – aquela explicação passo a passo de como chegou aos valores. Seguindo o mesmo exemplo, após calcular, podemos pedir: “Explique em formato de memorial: quantas horas, qual base de cálculo, quais índices aplicados, apresentando o resultado final”. O texto gerado seria algo como: “O cálculo das horas extras considerou o salário base de R$ X,00. Identificaram-se Y horas extras a 50% e Z horas extras a 100%, totalizando um adicional bruto de R$ W,00. Este valor foi então corrigido pelo índice Z (conforme tabela do Tribunal) desde a data de cada prestação até 20/04/2025, resultando em R$ K,00.” – tudo pronto para ser inserido no laudo.
Mas atenção: IA puramente de linguagem (LLMs) nem sempre garantem exatidão numérica. Há riscos de a IA “chutar” um número errado se confiarmos cegamente. Um caso recente ilustra isso: nos EUA, um perito usou o Copilot (ferramenta de IA da Microsoft) para checar seus cálculos de danos, e o juiz criticou porque o Copilot dava respostas ligeiramente diferentes a cada rodada, gerando dúvidas sobre a confiabilidade dos números. Ou seja, a validação humana continua imprescindível. O ideal é usar a IA para montar o cálculo e explicá-lo, mas sempre conferindo os resultados de forma independente (rodando o código sugerido, por exemplo, ou testando com valores conhecidos).
Em suma, a IA pode agilizar tremendamente a fase de cálculos periciais. Além de poupar tempo, ela ajuda a evitar erros de digitação ou fórmulas – quantas vezes já esquecemos de arrastar uma fórmula no Excel até a última linha, não é? Com a IA escrevendo e revisando o próprio código, há menos chances de descuido. E caso haja questionamento das partes sobre o cálculo, você ainda pode apresentar o script gerado como demonstração de transparência. Lembrando sempre: na hora de apresentar no laudo, traduzir tudo para linguagem acessível e citar índices oficiais, etc., que é o que realmente importa para o resultado ser aceito.
5. Redação e Revisão de Laudos (e Respostas de Quesitos) com IA
Finalmente, chegamos à etapa de elaboração do laudo pericial em si – onde todo o trabalho de análise e cálculo é organizado num documento coerente, técnico e claro. Essa é talvez a frente em que a IA generativa tem sido mais utilizada atualmente, através de ferramentas como o ChatGPT: para escrever, revisar e até reestruturar textos de forma rápida e eficaz.
Redação assistida: Escrever do zero pode ser desafiador, especialmente para peritos menos experientes ou em casos muito complexos. A IA pode funcionar como um redator auxiliar, propondo rascunhos de trechos do laudo. Por exemplo, você pode fornecer dados e pedir para a IA redigir a conclusão do laudo: “Com base nos resultados da vistoria e testes realizados (que você descreve brevemente para a IA), redija uma conclusão técnica indicando a causa provável das infiltrações em linguagem formal, impessoal, e cite as evidências encontradas”. Em segundos, a IA devolve um parágrafo de conclusão bem estruturado, que você pode adaptar.
De modo similar, é possível solicitar que a IA complete partes padronizadas do laudo. Digamos, a metodologia utilizada: “Descreva o método de ensaio de esclerometria no concreto e justifique sua aplicação neste caso, seguindo normas da ABNT”. Se o modelo tiver informação suficiente (por ter sido treinado ou através de seu prompt), ele produzirá um texto técnico adequado.
Linguagem e clareza: Um ponto forte da IA é ajudar a simplificar linguagem sem perder a formalidade. Peritos às vezes caem no erro de escrever de forma muito rebuscada ou, no polo oposto, técnica demais e pouco compreensível para leigos. A IA pode atuar como revisora de estilo: você cola um parágrafo e pede “torne este texto mais claro e didático, mantendo tom profissional”. O resultado costuma ser um texto mais fluido. Isso ajuda a cumprir algo essencial: “No laudo, o perito deve apresentar sua fundamentação em linguagem simples e com coerência lógica” (CPC, art. 473, §1º). Ou seja, o laudo tem que ser entendido pelo juiz e pelas partes, não apenas pelo perito. A IA auxilia exatamente em traduzir jargões em explicações mais acessíveis, quando necessário, sem perder a terminologia técnica onde for importante.
Preenchimento de quesitos: Os quesitos são perguntas específicas que as partes e o juiz fazem ao perito, e devem ser todos respondidos no laudo. Muitas vezes, responder quesitos é trabalhoso porque exige referenciar pontos do processo e fundamentar cada resposta. Aqui, a IA pode agilizar bastante: fornecendo os dados relevantes, ela consegue elaborar respostas técnicas bem estruturadas para cada quesito. Um fluxo poderia ser: você lista para a IA cada quesito junto com um resumo das evidências ou conclusões relacionadas e pede respostas objetivas. A IA então redige algo como: “Quesito 3: ‘A máquina possuía dispositivo de segurança adequado?’ Resposta: Conforme inspeção realizada e fotos anexas, a máquina não possuía proteção adequada no volante de inércia, em desacordo com a NR-12. Essa ausência de dispositivo de segurança foi fator contributivo para o acidente, visto que… (explicação técnica)…”. Perceba, a IA pode referenciar normas (NR-12 no exemplo) se isso estiver no seu contexto, e já escrever a resposta em tom pericial, direto ao ponto. Claro, o perito deve verificar cada resposta gerada – ajustando dados ou complementando – mas ainda assim ganha velocidade e consistência no preenchimento dos quesitos.
Além de responder, a IA pode ajudar a revisar se algum quesito ficou sem resposta ou mal respondido. Como mencionado, ela pode cruzar a lista de quesitos com o texto do laudo e alertar faltantes. Isso evita a clássica impugnação por “quesito não esclarecido”.
Revisão crítica e simulação de discordâncias: Uma funcionalidade inovadora é usar a IA para simular um revisor crítico do laudo – quase como se você tivesse um colega experiente ou até um advogado da parte contrária lendo seu laudo para achar falhas. Por exemplo, você pode instruir o ChatGPT a agir como um advogado que vai impugnar o laudo, e pedir para listar possíveis pontos de ataque ou áreas de inconsistência. Essa técnica é similar ao que peritos internacionais já fazem, usando o ChatGPT para simular cross-examination (contra-interrogatório) e se preparar para perguntas difíceis. No contexto escrito, a IA pode apontar: “Sua conclusão sobre a causa do dano contradiz um laudo anterior mencionado; explique melhor essa divergência para não gerar dúvida” ou “A parte autora poderia contestar a metodologia tal, alegando que a amostra é pequena; talvez justificar porque a amostra é representativa”. Munido desses insights, o perito pode fortalecer o laudo antes de entregá-lo, adicionando esclarecimentos onde a IA sinalizou potenciais brechas. Em essência, a IA ajuda a blindar o laudo contra futuras discordâncias, reduzindo trabalho posterior com esclarecimentos ou suplementações.
Por fim, mas não menos importante: correção gramatical e formatação. Um laudo com erros de português ou formatado de forma confusa pega mal profissionalmente. A IA pode revisar ortografia e gramática num instante. Pode também sugerir uma estruturação melhor: por exemplo, “liste os pontos observados em forma de itens para clareza” – e ela reescreve um parágrafo longo em forma de lista pontuada. Esse cuidado melhora a apresentação final do trabalho pericial.
Vale reforçar que a decisão e responsabilidade final são do perito humano. As ferramentas de IA não substituem a experiência e o discernimento do especialista. Elas servem para economizar tempo nas partes operacionais e até trazer ideias, mas quem assina embaixo do laudo e pode ser chamado em audiência para defendê-lo é o perito de carne e osso. Portanto, use a IA como assistente, nunca como autor autônomo do laudo. Tenha senso crítico: revise tudo que for gerado e adeque ao caso concreto. Seguindo essa recomendação, a IA pode elevar muito a qualidade e a agilidade do seu trabalho, enquanto você mantém o controle sobre o conteúdo técnico.
Exemplos Práticos: Prompts de IA para Perícias Judiciais
Depois de tanta teoria e possibilidades, vamos ver na prática alguns exemplos de como você pode interagir com uma IA generativa (como o ChatGPT) para realizar tarefas periciais específicas. Lembre-se: os resultados vão ser tão bons quanto o contexto fornecido – então nos prompts exemplificados a seguir, é importante inserir os dados do caso real (substituindo as partes em colchetes [ ]). A ideia é mostrar modelos de comandos que você, como perito, pode dar à IA para obter ajuda imediata.
Exemplo 1: Resposta Técnica a Quesitos
Digamos que você é perito em um caso de engenharia, envolvendo infiltrações em um edifício, e precisa responder aos quesitos formulados pelo juiz e pelas partes. Você já tem suas conclusões técnicas a respeito de cada pergunta. Pode usar um prompt assim para obter um rascunho de respostas bem formuladas:
"Você agora é um assistente especializado em perícias de engenharia civil. Baseado nos dados abaixo, redija respostas objetivas e fundamentadas para cada quesito listado, usando tom formal e linguagem pericial."
**Dados do caso:** Em um prédio residencial de 5 andares, surgiram infiltrações nas unidades do térreo. A perícia constatou falhas na impermeabilização da fundação e tubulações de drenagem rompidas, causando umidade ascendente. Reformas feitas em 2018 não seguiram as normas técnicas de impermeabilização (NBR 9575).
**Quesitos e Respostas Técnicas:**
1. Quesito: "Qual a causa das infiltrações nas unidades térreas?"
Resposta do Perito: [Explique aqui que a causa primária foi a falha de impermeabilização na fundação, agravada por tubulações rompidas, citando evidências como ensaios de umidade nas paredes e falta de manta asfáltica conforme NBR aplicável].
2. Quesito: "As infiltrações podem ser atribuídas à reforma de 2018 realizada pela construtora?"
Resposta do Perito: [Indique se há nexo causal com a reforma de 2018. Por ex: “Sim, em parte – a reforma substituiu o sistema de impermeabilização, porém de forma inadequada, em desacordo com NBR 9575, contribuindo para o problema.” Ou “Não, a reforma não abordou a fundação, logo a causa é anterior”].
3. Quesito: "Quais medidas corretivas devem ser adotadas?"
Resposta do Perito: [Descreva as recomendações técnicas, ex: instalar manta impermeabilizante nas fundações, reparar tubulação, aplicar barreira de umidade nas paredes, etc., conforme normas].
No prompt acima, fornecemos à IA o contexto (dados do caso) e cada quesito com um direcionamento da resposta. Observe que colocamos entre colchetes o que deve ser explicado – é ali que você inserirá as conclusões que tirou na sua análise. A IA então irá formular cada resposta de maneira polida e técnica, estruturando as frases conforme a escrita formal esperada em laudos. Esse método garante que todas as perguntas sejam respondidas e de forma consistente. Conforme o art. 473 do CPC, nenhum quesito pode ficar em aberto, e essa abordagem ajuda a cobrir tudo.
Exemplo 2: Revisão de Laudo com Foco em Discordâncias
Agora suponha que você já tenha um rascunho de laudo pericial quase pronto, mas quer revisar criticamente antes de entregar, antecipando possíveis contestações das partes. Você pode pedir para a IA ler seu laudo e apontar pontos fracos ou controversos. Um prompt completo poderia ser:
"Você é um Assistente Técnico experiente contratado por uma das partes para revisar criticamente um laudo pericial (elaborado por outro perito) em busca de possíveis falhas, inconsistências ou pontos de discordância. Leia o arquivo anexado do laudo do perito oficial. Indique os pontos que podem gerar contestação. Avalie e sugira em linguagem técnica quais itens do laudo poderiam ser questionados e por quê, adotando a perspectiva de quem discorda. Considere ainda osPossíveis Pontos de Discordância (para o Parecer Técnico):
- [Verificar se todos os registros de ponto foram considerados; apontar se há meses faltando ou registros alternativos apresentados pelo autor que o perito ignorou.]
- [Questionar a metodologia de cálculo: o perito aplicou juros de forma simples; avaliar se deveria ser composta ou se há súmula indicando outro critério.]
- [Conferir o índice de correção: foi IPCA-E, mas a parte poderia argumentar pelo uso da TR ou outro índice conforme época dos fatos.]
- [Checar se o perito explicou claramente a fórmula de cálculo. Se ficou omisso, sugerir que o laudo não detalhou o cálculo das 120 horas, dificultando a conferência.]
- [Analisar se o perito considerou corretamente os adicionais noturnos ou de domingo, caso aplicáveis. Se não, apontar essa ausência.]"
Nesse prompt, instruímos a IA a assumir o papel de um assistente técnico discordante, que vai dissecar o laudo de outro perito em busca de falhas ou pontos questionáveis. Note que fornecemos um resumo do laudo e, principalmente, listamos os possíveis pontos de discordância que queremos que ela aborde. Esses pontos você pode elaborar com base na sua própria revisão do laudo – basicamente, pensar “onde a parte contrária poderia implicar?”. A IA, a partir daí, irá gerar uma análise técnica apontando, por exemplo: falta de dados, escolha de índice controverso, cálculos não apresentados no detalhe, etc., com tom de contestação.
O resultado disso pode te ajudar de duas formas: (a) se você é o perito oficial, você descobre antes onde seu laudo pode ser atacado, e pode reforçá-lo ou preparar respostas; (b) se você é assistente técnico de uma das partes, esse prompt já te dá um rascunho do parecer técnico discordante, organizado por tópicos, ressaltando exatamente no que você deveria focar para desacreditar ou questionar o laudo oficial.
Esse tipo de revisão automatizada incrementa a qualidade do trabalho. Afinal, nenhum de nós está imune a deixar escapar algo – ter uma “segunda opinião” da IA ajuda a pegar deslizes. Lembre-se apenas de filtrar as sugestões da IA: algumas podem não proceder, então use seu julgamento para acatar ou não cada crítica levantada. De todo modo, é uma forma rápida de realizar um QA (Quality Assurance) no laudo antes do passo final.
Os exemplos acima ilustram apenas duas situações (responder quesitos e revisar laudo). Mas você pode adaptar a ideia para virtualmente qualquer necessidade de texto ou análise dentro da perícia. A IA é muito versátil: experimente pedir para ela esboçar a estrutura do seu laudo antes de você escrever (ela monta um índice com seções e subtópicos que você pode seguir), ou para resumir depoimentos das testemunhas destacando o que é favorável a cada tese, ou ainda para explicar um conceito técnico de maneira que possa ser entendido em audiência. Com criatividade e cuidado, as possibilidades são amplas.
Conclusão
A aplicação da Inteligência Artificial nas perícias judiciais cíveis e trabalhistas já é uma realidade e tende a crescer exponencialmente. Como vimos, a IA pode atuar como uma espécie de copiloto do perito: agilizando a leitura de documentos, resumindo processos longos, encontrando padrões escondidos, realizando cálculos tediosos e até redigindo partes inteiras do laudo com qualidade. Tudo isso resulta em ganhos de tempo, precisão e produtividade, permitindo que o perito se concentre no que realmente exige seu conhecimento específico – a análise crítica dos fatos e a tomada de decisões técnicas.
Para o profissional iniciante, a IA funciona como um mentor silencioso, indicando caminhos (por exemplo, lembrando de responder todos os quesitos, sugerindo estruturas e fundamentos conforme normas). Para o veterano, é uma aliada para aumentar throughput de trabalho – imagine conseguir entregar mais laudos no mesmo tempo, ou dar mais atenção a detalhes finos enquanto a IA cuida do “feijão com arroz” operacional. Em ambos os casos, quem ganha também é o Poder Judiciário e as partes, com laudos entregues mais rápido e muitas vezes com mais clareza e embasamento.
É claro que desafios existem. Questões éticas sobre até onde vai o uso da IA, a necessidade de garantir que a imparcialidade e a privacidade dos dados sejam mantidas, e principalmente a responsabilidade final do perito sobre tudo que está no laudo. A IA deve ser usada de forma responsável e transparente. Vale a pena o perito mencionar no laudo, se for o caso, que utilizou ferramentas de análise digital de dados ou apoio de software – sem problemas, desde que ele valide os resultados. A confiança no trabalho pericial não pode ser abalada; pelo contrário, a IA bem aplicada deve aumentar a confiabilidade (menos erros, mais consistência). Em última instância, a palavra final e a interpretação dos resultados continuam sendo humanas. Como bem disse um juiz certa vez ao avaliar um laudo auxiliado por IA: “a tecnologia é bem-vinda, mas para assuntos críticos, é sempre prudente verificar”. Ou seja, a IA não tira do perito o protagonismo – apenas potencializa suas capacidades.
Chegando ao fim, fica o convite: experimentar. Se você ainda não usou nenhuma ferramenta de IA em suas perícias, comece aos poucos. Peça para resumir um documento, ou revisar um trecho do seu texto. Aos poucos, você verá como isso pode revolucionar sua forma de trabalhar, economizando horas e elevando a qualidade. E para ajudá-lo a dar os primeiros passos (ou aprimorar quem já está caminhando nessa estrada), preparamos um material especial gratuito: 9 Prompts Imbatíveis para Elaboração e Revisão de Laudo Pericial ou Parecer do Assistente Técnico. Esses prompts prontos vão servir como templates que você pode personalizar e usar diretamente com o ChatGPT ou outra IA generativa, cobrindo cenários desde uma perícia de engenharia até uma perícia médica ou contábil. Não perca essa oportunidade de turbinar sua atuação pericial com o poder da IA!
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JOSÉ ANTONIO BALZER, engenheiro civil, perito judicial, especialista em perícia judicial cível.
Fontes e Referências:
Código de Processo Civil – Lei nº 13.105/2015
- Art. 473: Dispõe sobre os requisitos obrigatórios do laudo pericial (objeto, metodologia, análise, quesitos, etc.).
ABNT NBR 13752:2017 – Perícias de engenharia na construção civil
- Define os elementos mínimos de um laudo técnico e orienta sobre terminologia, conteúdo e metodologia da perícia.
Resolução CFM nº 2.183/2018 – Dispõe sobre normas éticas para o médico perito e elaboração de laudos médicos.
NBC TP 01 do CFC – Norma Brasileira de Contabilidade aplicada à perícia contábil
- Estabelece diretrizes para conduta e estruturação de pareceres contábeis.
Batista, L. M., & Souza, C. G. (2023).
A Inteligência Artificial como ferramenta de apoio à perícia judicial trabalhista – Revista de Direito do Trabalho e Processo
- Estudo de caso sobre uso de IA para apuração de horas extras e simulações automatizadas de liquidações.
Silva, R. F., & Moura, V. J. (2022).
Aplicação da IA em análises técnicas de engenharia legal: potencialidades e limitações – Revista Brasileira de Engenharia Legal
- Avalia o uso de NLP e machine learning para interpretar relatórios técnicos e gerar conclusões automáticas.
Freitas, G., & Leal, C. (2024).
O uso do ChatGPT para auxiliar na elaboração de laudos periciais em processos civis – Revista de Ciências Jurídicas e Tecnologia
- Apresenta testes realizados com IA generativa na construção de respostas a quesitos e análise de documentos.
OpenAI Documentation – GPT-4 Technical Report
- Informações técnicas sobre a capacidade do modelo em responder questões jurídicas e interpretar documentos longos.
Thomson Reuters – White Paper (2023)
Legal AI Tools in Judicial Workflows: From Research to Drafting
- Aplicações práticas da IA em processos civis, incluindo análises de jurisprudência, sumarização de decisões e revisão de petições.
Microsoft – Copilot Case Analysis (2024)
- Avaliação crítica do uso de IA (Copilot) em perícias judiciais americanas, com foco na confiabilidade dos cálculos.
Everlaw – Blog e Documentação Técnica
- Solução norte-americana de e-discovery com IA que resume documentos jurídicos e constrói narrativas processuais.
ChatGPT Law Experiments – Harvard Law School (2024)
- Estudos empíricos sobre como peritos e advogados usam IA para elaborar pareceres, simular contra-argumentos e revisar textos legais.
Publicações do IBAPE (Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia)
- Manuais e orientações técnicas com uso crescente de tecnologia em perícias.